segunda-feira, 21 de setembro de 2009

, que haja durante.

Nos são apresentados, desde cedo nesta vida, que outra não há e assim espero, os meios pelos quais pode a mesma deixar-se corroer em processo constante e gradual de autofagia, até restar por fim a parcela de quase nada a que se assiste, estático, rumar em sua inevitável caminhada à perdição. Meios, digo eu, e os há, em toda certeza.
O que não nos é dado, assim dito de bandeja, é o discernimento necessário a todos, mas só aos grandes concedido, de que a possibilidade - até probabilidade - do ocaso é motivo grande o bastante para se apontar ao lado oposto, falar a si mesmo que, se não há felicidade ao fim, que haja durante, e retomar os passos dificultosos que nos levam a qualquer lugar outro que não a certeza.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Rosa ou cadáver?

Tanto, tanto tempo sem me visitar por aqui. Em tempos de 140 caracteres no twitter e menos ainda horas livres por dia, acaba que me acostumo a não fazer sequer esforço para perceber palavras que porventura se encadeariam em um qualquer texto coerente e dotado de algum sentido ou sentimento.
Falar de mim não é usual neste recinto. Tento denotar certa perspectiva genérica no que escrevo, sempre receoso de qualquer coisa que se pareça um lamento adolescente. Que hoje se faça exceção, então.
Dois meses fechados, agora vejo, desde minha última passagem. Que fiz desses sessenta e tantos dias? Em verdade, o quão razoável seria perguntar "que fizeram de mim esses sessenta e tantos dias?"? O bom senso deve-se achar em meio termo entre ambas perguntas; acredito que eu e o tempo temos nos exercido influência recíproca. Aparentemente, algo positivo, e que assim continue, se assim for.
Posso bem dizer que uma saudade fez-se presença, novamente. Encaro-a eu como corpo putrefento debilmente reanimado, apenas rescindindo o que resta do seu próprio ranço, ou como a flor que do pus, da merda nasce? Saberei de forma ou outra. Ou talvez dependa de mim apenas: rosa ou cadáver? À terra vai ou da terra vem?
Posso tão bem quanto também dizer das minhas futuras saudades, que as tenho certas apenas pelo quão bom é ter suas razões hoje presentes em vida. Mas se irão, se irão, em certeza e em verdade.
Finalizando, ao menos o que há de disposição para se escrever hoje; dias ocupados, preocupações sobre manter-me vivo à arte e à academia, aos amigos e às obrigações, tudo ao mesmo tempo agora. Impossível, bem se sabe, mas tenta-se.
Espero voltar aqui em breve; voltarei, sim. Não me abandono, não me abandonem. Não se abandonem.

E que fizeram de você esses sessenta e tantos dias?

ps: bem adequado... The Present Tense, o tempo presente, em tradução livre, que é o que nos importa, agora. E linda, linda música.



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amemos, portanto.

Momento aqui emocionado depois de resgatar álbuns antigos me mantendo bebê, e o mesmo fazendo de certa forma aos que me cercavam, quando ainda se ria com a leveza que a infância concede, a nossa ou dos que nos amam. Me veio à mente a seguinte ideia, um olhar dirigido por pai ou mãe a um filho não está preso ao momento que o contém, mas no instante por que é mantido, não mais do que isso, transita livre em viagem pelos anos, o vê nascendo e dando início à história que a deles se confunde, o primeiro sorriso e as primeiras palavras que o explicam, a inocência aos poucos sendo morta pela vida sobre a qual não têm controle, as primeiras ideias que o farão indivíduo, o corpo crescendo até onde pode, a mente crescendo para além de si, isso tudo em um fluxo que culmina no momento presente, em que o filho é esperança, bebê, criança e homem, tudo ao mesmo tempo, no intervalo de um olhar.
E compreensível que não respondamos com o cuidado merecido, e às vezes inclusive com a falta completa dele, nós que somos essa mistura malefeita de criança, homem e esperança; deve-se, vez por outra, contudo, trazer à mente essa ideia, e por ela só, amá-los.
Amemos, portanto, agora, não depois.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A própria ausência de mim.

Levamos conosco vida adentro o vazio do qual viemos, e será ele a herança única que sobre a vida deixaremos quando nos formos. Bem parece sermos de forma que, enquanto vivos, tenhamos apenas uns aos outros com quem contar para preenchê-lo; curiosa soma de vazios, nada e nada, resultando em qualquer coisa que nos explica e sustenta, e da qual devemos nos despir tão somente no momento derradeiro, quando nos iremos inteiros vida afora, deixando apenas nosso vazio particular, e que lidem os vivos com ele.
Se é aceita a ideia anterior, não se pode chamar exagerada a dor de nos vermos novamente subtraidos a nada, pela ausência a nós imposta da outra parte dessa soma; e bem se entende também quem em desespero afirmar ser a saudade a própria ausência de si. Verdade, cá comigo e meu vazio, é a saudade a própria ausência de mim, nos momentos em que só com ele eu puder contar.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Microconto em 15 minutos da madrugada.

- A vida, como vai?
- A vida vai a mesma em tudo que isso diz, ou em verdade, vai ela a mesma em tudo que isso cala.
- Você fala feito literatura, e acho isso chato.
- Antes o fosse; em literatura o fim é pretexto para início qualquer. Nada seria escrito sobre este final sem lições que vivemos; qualquer ponto final em uma página em branco o escreveria melhor, e não há sentido em pontos finais, se finais o são.
- Que seja, não importa, não mais.
- Concordo, e até me surpreendo com isso.
- Se dizemos ambos concordar, algum de nós mente.
- E por que isso?
- A um de nós pertece esse corpo cá no chão, um de nós compartilha o podre que resta do que nele foi carne, a um de nós cabe carregá-lo, com todo o peso inequívoco do fungo e da carniça, sobre os ombros, aonde for.
- Nem o tinha notado.
- Mente.
- Minto.
-
-
-
- E que bonito foi um dia esse amor.
- Houve beleza, por momento fugidio que seja, em tudo que foi vivo e já não há em vida.
- Literária, você, olha só. Aquele que de nós mente, afinal, vai carregar esse cadáver consigo, é isso?
- É isso.
-
-
- Mentimos ambos, portanto?
- Eu, não.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Se mal cuidadas as lembranças.

Não raro se dá a situação em que o que de concreto temos em vida perde aos poucos a nitidez, menor é o controle que exercemos sobre ele, até que por fim reduz-se sem aviso ao espectro malacabado da memória. Pode-se bem dizer, e em verdade se diz com propriedade inquestionável, que é assim mesmo, que um dia seremos nós mesmos pouco menos que a lembrança nas mentes saturadas dos que ficaram, como esperar coisa outra do que levamos conosco? Ainda se diz mais, e ainda corretamente, que agradecidos deveríamos ser pela oportunidade a nós concedida de observarmos o que um dia foi e já não é desse camarote cedido pelo tempo, para que choremos pelo já chorado, aprendamos pelo um dia errado e sigamos em frente, por fim, e que feliz fiquemos, pois bem podia ser que o vivido repassado não pudesse ser e pediriamos licença para entrar em uma infinita sequência de erros iguais.
Bem aceita a bênção de se poder sofrer, e tudo mais que isso implica, e pouco não é, pelo já sofrido e todos esses etecéteras enfadonhos já citados, é aqui ressaltada a mazela que é conseguirmos o feito, ou observá-lo conseguido por outrem, de vermos maculadas as memórias dessas tais dores e sucessos. É possível, e que injusto que é. Não saberia descrever o método ou meios para tal, mas que não se duvide, é possível. E alcançado tamanho feito, restamos nós com o tumor que é uma lembrança pestilenta - faz duvidar do que de belo vivemos em absoluto, faz maior as amarguras quaisquer das quais já curtimos o ranço por tempo suficiente.
A mazela de uma memória é nosso passado maculado, e maculada está também aquela com quem o vivemos; pois então se conclui com tristeza que, se mal cuidadas as lembranças, pensaremos o já vivido como se, ao recordarmos ente querido falecido, pensássemos apenas em seu cadáver putrefento deitado rígido em seu velório.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Todo amor já foi coisa diferente.

Todo amor já foi coisa diferente; entre o instante anônimo do primeiro suspiro e o momento doceamargo do último engasgo, não deixa ele de mudar, como bem mesmo o vivente que o encerra. E se já não mais há eloquência entre olhos um dia tão falantes, que não se culpem córneas e cristalinos - é mesmo o amor que, ante o fim, se cala, e espera mudo para, em um último esforço altruísta, morrer só. E descontada a nobre intenção, fato é que, em amor, nunca se morre sozinho.
Bem verdade que pode ele, em sua dinâmica, crescer e fazer-se forte, e sem dúvida o faz; é o momento para mostrá-lo e exercê-lo - nada mais rico em estética que sujeito carregado por amor robusto. Desapego, se possível fosse haver, seria aqui recomendado, pois não demoram pernas a fraquejar, o ar faz-se faltoso, e tão mais cedo do que se espera, somos nós a carregar sobre os ombros o corpo débil do que foi um amor a dois. Até por fim largá-lo, que se vire só, já que só estou também, vá aonde vão os amores senis e por lá se realize até que finalmente se desfaça em qualquer coisa que sobre de um sentimento liquidado. Ou bem se pode guardá-lo em gaveta pouco usada, e aqui se pode ou não entender metáfora, e vez em quando abri-la somente para, em vista do fungo, do mofo e do pus, constatar em amargura: todo amor já foi coisa diferente.


Para amenizar um tanto o ranço amargo dessas letras, vai aqui uma amargura um tanto mais doce.