Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador música. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Isso.


Eu cuspo em seu sorriso. E sei que os dentes não cessarão seu desfile, músculo algum hesitará em sua rigidez; é um sorriso todo esse em que cuspo, e não basta gesto solitário de amargura para que fraqueje nas certezas que o criaram e o mantêm. Mas não me tome por maldoso, nem tampouco pense que o desprezo. Se há qualquer sentimento que justifique o cuspe que pela sua boca agora escorre, é um primo sem nome da inveja, não lhe chamo o nome por nome não haver com que lhe chame; aqui, contudo, será isso o seu pronome.
Isso me coabita desde que soube, com idiota certeza soube, estar em espera pelo próximo passo. Tudo o que fui até então foi construído, conquista débil após conquista débil, em um mesmo ponto, onde estou parado sustentando uma vida que aguarda. Sobre mim, todos esses anos de pessoas e obras e frustrações minhas e frustrações delas e vitórias mesquinhas e expectativas e expectativas. Toda essa torre abobalhada esperando o próximo passo que lhe dará sentido. Talvez desmonte, por fim. Mas que desmonte.
E é isso, amigo, a razão por que lhe cuspo a face. Vejo-os andando em vida; em círculos, atabalhoados, mas andando, e felizes assim. Sorrindo. Ser feliz, talvez, é saber um lugar que seja seu. Eu não sou, até então, o meu lugar; minha boca, portanto, mantém-se cuspindo, sem tentar, covarde que é, o passo delicado de um sorriso.


Terminar com a pergunta abaixo faz sentido, acredito.



quarta-feira, 28 de julho de 2010

, sem ao menos saber.



As pessoas, esses fungos que, se deixarmos, nos tomam a vida inteira, sem ao menos saber. Se vivê-las significa reservar-lhes espaço vital de nossa lembrança, de nossa vida, preenchido por tudo que resultou de conhecê-las, uma vez que se vão, que nos resta? Aos poucos, e, por vezes, de um só golpe, se esmigalha tudo a que se podia recorrer, e escorre sabe-se lá aonde, que desconheço onde fica o que nem à lembrança mais pertence. Restamos então, cá conosco, com este espaço vazio, esta ausência, onde sopra vez ou outra a brisa de uma saudade; dentro de nós, qualquer eco nos pertence.
Recomendo, portanto, evitar-se despedidas; são aborto duplamente cruel - pelo passado que, a partir de então, se põe a esmigalhar-se, e pelos momentos todos para os quais já havíamos até reservado a parcela de nós mesmos a ser preenchida; essa nunca deixará de ser lacuna, e que a frustração tome, aos poucos, as paredes.
Tenho saudades soprando por todos os vazios que em mim me deixaram, sem nem saber. Chamo por eles todos, os que se foram, e por resposta tenho apenas minha voz, cada vez mais débil, cada vez mais fraca. Ausência não tem cor, são buracos escuros apenas, essas lacunas de que falo.
Dentro de mim, eu, minha voz débil, e as migalhas que restam no chão.
As pessoas, esses fungos que, se deixarmos, nos tomam a vida inteira, sem ao menos saber.

Almejando à coerência e ao amparo dos grandes, Morrissey concorda que "life is a succession of people saying goodbye".


terça-feira, 9 de junho de 2009

Todo amor já foi coisa diferente.

Todo amor já foi coisa diferente; entre o instante anônimo do primeiro suspiro e o momento doceamargo do último engasgo, não deixa ele de mudar, como bem mesmo o vivente que o encerra. E se já não mais há eloquência entre olhos um dia tão falantes, que não se culpem córneas e cristalinos - é mesmo o amor que, ante o fim, se cala, e espera mudo para, em um último esforço altruísta, morrer só. E descontada a nobre intenção, fato é que, em amor, nunca se morre sozinho.
Bem verdade que pode ele, em sua dinâmica, crescer e fazer-se forte, e sem dúvida o faz; é o momento para mostrá-lo e exercê-lo - nada mais rico em estética que sujeito carregado por amor robusto. Desapego, se possível fosse haver, seria aqui recomendado, pois não demoram pernas a fraquejar, o ar faz-se faltoso, e tão mais cedo do que se espera, somos nós a carregar sobre os ombros o corpo débil do que foi um amor a dois. Até por fim largá-lo, que se vire só, já que só estou também, vá aonde vão os amores senis e por lá se realize até que finalmente se desfaça em qualquer coisa que sobre de um sentimento liquidado. Ou bem se pode guardá-lo em gaveta pouco usada, e aqui se pode ou não entender metáfora, e vez em quando abri-la somente para, em vista do fungo, do mofo e do pus, constatar em amargura: todo amor já foi coisa diferente.


Para amenizar um tanto o ranço amargo dessas letras, vai aqui uma amargura um tanto mais doce.


quinta-feira, 28 de maio de 2009

Um céu escuro de passado.


Bem verdade a quebra em um ritmo tão bom de escrita a que tinha me acostumado pelas primeiras semanas; mas é possível que haja a infeliz oposição, aqui, entre minha escrita e minha vida - que uma se alimente do que à outra é carniça. Torçamos então por tempos de fome literária.
Tenho cá pensado, no entanto, sobre a infeliz relação entre um e suas ausências - infeliz por tão pouco ou nada recíproca. Enquanto tão fácil nos tocam os ausentes, a eles podemos tão somente assistir desse camarote melancólico que é a memória. E continuaremos a assisti-los tomarem formas improváveis, em um céu escuro de passado, tão longe ao toque, mas à distância de um olhar, até que por fim se desfaçam em saudades e, logo, em nada mais. E nada mais tantas vezes é o que falta para o claro de um céu que, por mais que discordem nossos olhos, é o mesmo e o será sempre.
Que fique perdoado o texto pouco inspirado por motivo de ressaca e de uma certa falta de objetivo com essa música de céu azul.





Wilco - Sky Blue Sky

domingo, 17 de maio de 2009

Love is all, Love is you.

Em certo ponto do filme Hannah e Suas Irmãs (assistam sem hesitar) o personagem de Woody se questiona: "Milhões de livros escritos sobre cada assunto concebível, por todas essas grandes mentes e, no fim, nenhum deles sabe mais das grandes questões do que eu". A partir daí, fala de Sócrates, grande violador de menininhos; Nietzsche, com sua teoria do eterno retorno, o que significaria ter de ver todos os filmes e programas de tv ruins de novo, não valeria a pena; Freud, outro grande pessimista - o analista do personagem foi tão infrutífero que acabou ele por frustrar-se; conclui, então: "Talvez os poetas estejam certo; talvez o amor seja a resposta".
E em verdade, seja dispensado um momento de cada dia para reflexões, sem dificuldades nos deparamos, assim de surpresa, com a falta de razão e propósito dos nossos dias, a princípio, se considerada nossa finitude, a fragilidade de um corpo, a falta de 'por quê's, a certeza desenganada de que viveremos a morte dos que amamos, com exceção ao fato de irmos nós antes, tanto pior; a incerteza da recompensa após anos de trabalho duro, a oposição entre os caminhos prudentes e nossos desejos aventurosos - paremos por aqui, fiquemos acordados, pois é infinita a lista, ou o fim não o distinguo, o que pouco tem de diferente. Que culpa têm os que se desesperam? Qual a fraqueza dos suicidas, se a vida não os municiou da força com que aguentassem o peso de seu conteúdo, esse novelo sem lógica ou propósito?
Algum sentido é necessário; e se a razão a si não se sustenta, nos voltamos à poesia - aqui como metonímia para qualquer arte - que da razão prescinde. E, em arte, temos por essência o amor tantas vezes versado, cantado, filmado e exercida de outras formas tantas. E amor podemos sentir e viver, e dele, sem que razão seja necessária, retiramos o sentido para uma vida que de outra maneira não o teria.
O que parece até o momento um texto feito convite a amar, pode agora decepcionar alguém mais romântico que o leia, pois não é bem nesses tons que se conclui. O amor carrega consigo beleza necessária para que plena se viva a vida, mas tem em si a fraqueza inequívoca que consiste em, de cada amor, sermos nós apenas metade. O amor, por vistoso que seja em princípio, é até de má-fé dizê-lo, mas do tempo recebe fungos, mau cheiro e se faz tumor, e ele não mais se vive, mas a ele se sobrevive até que se rompa, e voltamos todos à miséria de termos perdido o sentido que à vida concedemos, em tempos enamorados.
Mas e que fazer? Pode-se bem ter um balaço no crânio como resposta; se lhe convém, não protesto, pois resposta mesmo eu não a tenho. Convenço-me, por sobrevivência, a aceitar que da vida sentido só se obtém se aceita a pergunta que ela é, em absoluto; as perguntas, em verdade, uma variedade delas. E eu cá me apego à pergunta desse amor todo em forma de interrogação, e deixarei de perguntá-lo apenas no dia que até essa questão não me dê mais sentido.
Fiquemos com os Beatles, para quem 'love is old, love is new/ love is all, love is you".


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Como desaparecer completamente.


Verdade é por vezes acharmos haver olhos demais no pedaço de mundo que nos compete, e tanto valor seria dado ao anonimato de um momento em suspenso que durasse apenas o quanto tivesse de durar, nem um segundo a menos. Não há quarto fechado ou caminhada solitária que nos aliene da iminência próxima, tão próxima, da promiscuidade que é estar em público quando nossa própria companhia faz-se multidão, sozinha. E violados nos sentiremos novamente, tão somente pela menção de sermos vistos.
Que não seja julgada a postura até aqui escrita tal qual melodrama adolescente de aparente isolamento como pretexto para chamar a si os olhos cuja vista diz repudiar, ainda que sejam esses impulsos semelhantes em forma ao aqui descrito, mas tão longe em conteúdo. Em verdade, é fardo de quem vê doença nas convenções necessárias para exercer o que aparentemente temos de social ser julgado doente do mesmo mal, apenas em sua faceta oposta.
E uísque é escape, masturbação escape é, o que se fuma e o que se cospe são escapes também, e à sujeira a que almejamos se recorre, e com ela se confunde, adquirindo também suas feições, e tudo resta sujo, de fora a dentro. E sujo ficamos apenas por ser a sujeira motivo de repúdio aos tantos olhos aos quais foi pedido, a princípio, apenas um momento de privacidade, amargurada que fosse, mas de amargura íntima.
Texto um tanto atípico, bem afeito aos antigos vômitos adolescentes vocabulares, sem a prudência linguística e temática de que não prescindo, na maioria das vezes, se pretendo torná-lo público. Mas que seja, nem sempre conseguimos ser prudentes.
Um tanto de beleza, então, a seguir. Como desaparecer completamente? Radiohead explica.



segunda-feira, 11 de maio de 2009

Se adeus for necessário.

Dizer adeus é lição de que não pode prescindir ninguém em uma vida, se pretender não fazer da mesma uma sucessão de frustrações distintas em conteúdo, tão semelhantes em forma. E quão pesada é uma ausência, por paradoxal que pareça. É ver-se ante à presença do não-estar, e se confuso parece, é por confuso ser.
Saudades é ter lacunas em seus dias que por você mesmo não se podem preencher; e se clichê é dizer que o tempo as preenche assim de forma tão natural, diga-se também que com o tempo faz-se nossa vida um desfile das lacunas que preenchemos plena ou debilmente, com as quais aprendemos ou não a conviver, e às quais sobrevivemos ou não.
Que se aprenda, então, a dizer adeus, se adeus for necessário, e convivamos com a presença do que em nossa vida passa a faltar; mas se necessário não for, não dê razão à crueldade que é o adeus antecipado, frígido e repleto de fundamentos; maiores serão as lacunas, maior o peso de uma ausência.
Se confuso parece o texto, é por confuso ele ser, realmente. E como desculpas pelas minhas saudades enfadonhas, tomem aí uma saudade de Dylan. Se você a vir, diga olá.



If you see her, say hello, she might be in Tangier
She left here last early spring, is livin' there, I hear
Say for me that I'm all right though things get kind of slow
She might think that I've forgotten her, don't tell her it isn't so.

We had a falling-out, like lovers often will
And to think of how she left that night, it still brings me a chill
And though our separation, it pierced me to the heart
She still lives inside of me, we've never been apart.

If you get close to her, kiss her once for me
I always have respected her for busting out and gettin' free
Oh, whatever makes her happy, I won't stand in the way
Though the bitter taste still lingers on from the night I tried to make her stay.

I see a lot of people as I make the rounds
And I hear her name here and there as I go from town to town
And I've never gotten used to it, I've just learned to turn it off
Either I'm too sensitive or else I'm gettin' soft.

Sundown, yellow moon, I replay the past
I know every scene by heart, they all went by so fast
If she's passin' back this way, I'm not that hard to find
Tell her she can look me up if she's got the time.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Valsando com Mathilda.


Criamos por hábito fazer frígido o que de mais vulnerável há em nós, em consequência ao medo tão comum de termos expostas aos olhos terceiros as coisas miúdas que nos fazem fracos. Problema é desenvolver a tal ponto essa crosta que nem saibamos mais nós o caminho por onde alcançar o que temos também de mais bonito e insolúvel. Pois aqui apresento um atalho.
Tom Waits veio a mim em período de negação, como tantos há e outros tantos houve; sua voz traz consigo a imagem dos frustrados nas ruas de uma cidade a eles cega, dos bêbados, daqueles com um fígado ruim e um coração partido, da perdição dos homens nas infinitas maneiras pelas quais conseguem atingi-la, das saudades, dos amores que já não há. E incrível que pareça, traz também conforto, pela razão irônica de que se constata que em um mundo onde tantas mazelas incidem sobre nós, há também a possibilidade de fazer delas arte. E arte é o mínimo que se pode dizer daquilo que soa através dessa voz rouca e perdida, pois rompe barreira qualquer que se possa ter erguida e nos toca onde precisamos, vez por outra, para humanos sermos, ser tocados. Por mais que doa.
Para vocês, para mim, Tom Traubert's Blues.