sábado, 8 de janeiro de 2011

pra ser tão gente.

De sós, pisamos a rua; de enfado, a casa voltamos. Talvez, a impossibilidade com que lidamos todo dia em nossa roda lenta de pessoas é a falta de medida entre o que buscamos e o que se pode achar.
Não se é, em cada cama de solteiro, gente o suficiente; masturbamos solitários nossa individualidade aleijada até decidirmos que deve haver, há de haver por aí, sujeito qualquer que complete o naco de gente que nos falta. E quão humilhante é a busca até que se encontre rostinho ordinário que carregue o que pensamos nos faltar. E vá lá, que divertido pode ser por tempo breve - breve - durante o qual nos sentimos gente plena. E seja em nossa casa vazia ou na avenida maior que há, carregamos esse rostão satisfeito de gente toda. Breve, é breve e lhe digo novamente que é breve.
Logo, tão mais cedo do que você esperava, eu garanto - eu garanto - há de se pensar, quase saudoso, na ausência daquele teco de gente. A náusea virá, e nos vemos gente demais; é gente caindo pelos ouvidos, é fartura de gente expulsa em golfadas, é gente excretada por cada cada poro que possível for, até restar, tão somente, a parcela malefeita de gente que costumávamos ser. Não nascemos pra ser tão gente, duas pessoas é gente demais. E de enfado, a casa voltamos.
Voltando à questão da falta de medida, e com ela concluindo, meio termo não há; ou se é gente de menos, ou se enfada por gente demais. Tá-dá.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Isso.


Eu cuspo em seu sorriso. E sei que os dentes não cessarão seu desfile, músculo algum hesitará em sua rigidez; é um sorriso todo esse em que cuspo, e não basta gesto solitário de amargura para que fraqueje nas certezas que o criaram e o mantêm. Mas não me tome por maldoso, nem tampouco pense que o desprezo. Se há qualquer sentimento que justifique o cuspe que pela sua boca agora escorre, é um primo sem nome da inveja, não lhe chamo o nome por nome não haver com que lhe chame; aqui, contudo, será isso o seu pronome.
Isso me coabita desde que soube, com idiota certeza soube, estar em espera pelo próximo passo. Tudo o que fui até então foi construído, conquista débil após conquista débil, em um mesmo ponto, onde estou parado sustentando uma vida que aguarda. Sobre mim, todos esses anos de pessoas e obras e frustrações minhas e frustrações delas e vitórias mesquinhas e expectativas e expectativas. Toda essa torre abobalhada esperando o próximo passo que lhe dará sentido. Talvez desmonte, por fim. Mas que desmonte.
E é isso, amigo, a razão por que lhe cuspo a face. Vejo-os andando em vida; em círculos, atabalhoados, mas andando, e felizes assim. Sorrindo. Ser feliz, talvez, é saber um lugar que seja seu. Eu não sou, até então, o meu lugar; minha boca, portanto, mantém-se cuspindo, sem tentar, covarde que é, o passo delicado de um sorriso.


Terminar com a pergunta abaixo faz sentido, acredito.



domingo, 26 de setembro de 2010

Débeis.

Do amor, em um corpo, pouco resta além do vazio que ocupava - não se leva consigo nada nobre, não há aprendizado que fique. Toda experiência desmonta, vai ao chão, e fica-se só, a cabeça entre as mãos, ruminando a constatação - "absurdo, absurdo". Foi assim após o primeiro, assim será por quantas vezes amor houver.

Todo amor nasce e morre em função dele mesmo; nada levamos que nos faça mais preparados para o próximo. Qualquer convicção contrária é tentativa débil de se ter controle - não há, não há. Fim de amor é ressaca eterna até a próxima dose; a embriaguez virá da mesma forma.

No fim, e encerrando de forma descompromissada um texto preguiçoso e sem objetividade, cada amor compartilha com outro, tão somente, a expectativa. Nascer amor é nascer a ansiedade pelo fim, e nenhum aprendizado anterior a faz mais confortável; e, até que chegue, seremos tão débeis como fomos por cada vez que, sorrindo frouxo, acreditamos que seria diferente. Débeis.



Esse texto está tão cretino e preguiçoso, que não vou nem relacionar alguma música a ele. É ele, sozinho, em toda sua cretinice.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Cuspir uvas passas.

Não há quem não o seja; mesmo o mais cretino de nós é um arranjo atabalhoado de improbabilidades. Pensada assim de batepronto, é uma ideia com trejeitos de otimismo; que fascinante é pensar em poder esperar uma infinidade de absurdos de cada um desses anônimos rotineiros.
Seria, seria, e tão bom se fosse. Antes de pensar em canção ensolarada qualquer e assobiá-la calçada afora, saibamos, descubramos juntos não ser assim. É condição de ser pessoa a capacidade efervecente de secar toda exceção em potência, e concretizar apenas o esperado; e como o esperado vem se mostrando uma tendência. As pessoas são possibilidades decepcionantes. E as exceções, uvas passas sob o sol da flacidez de espírito.
Aqui temos estranha situação onde uma maioria concorda, débil, enquanto a minoria que resta não é nem metade do que aqui se fala. Eu falo de você, de sua mãe e do seu namorado.
E que faz você, seu maldito?, além de cuspir amargura neste canto miúdo, emprestando algum glamour de pessoas tão maiores que você? Absolutamente nada além do que aqui se vê. Sentarei em qualquer banco vago pela manhã, estóico na constatação de poder muito bem ser objeto do que escrevo, ou de poder vir a ser; mas até lá, não deixo de cuspir. Cuspir uvas passas.

domingo, 22 de agosto de 2010

; esse.

Há vidas que não são viagens, mas eternas salas de espera sem porta ou itinerário visível; dessas, não espere mais que enfado e golfadas úmidas de um ar saturado. Que medo tenho de, em dia maldito, me encontrar sentado sobre uma mala contendo o pouco que trouxe comigo, para não ser mais aberta. Deve-se esse receio, veja bem, ao equívoco comum em que caimos a cada vez que falamos em portas que abrimos e fechamos, em vida. Não há portas; para falarmos em portas, temos de, ao menos, considerarmos a escolha de abri-las. Mas não, a vida não comporta maçanetas; se nada mais, em vida há buracos. E são por eles que, ao se abrirem sob nós, sem aviso, passamos à outra passarela pela qual daremos continuidade à caminhada enfadonha rumo ao próximo.

Da confusão desse parágrafo malefeito acima, retirem apenas isso - escolhas até há, mas somente até o ponto em que o chão se arrebenta sob os pés. Não há alternativa à queda.

O medo que de mim fez casa tem por razão de ser a possibilidade concreta de, sem que ao menos perceba, encontrar-me esperando, e nada mais. A vida não sobrevive estática; apenas parou, passa a apodrecer. Uma sala de espera em que nado sozinho no pus de minha vida carcomida - esse é meu medo; esse.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

por uma vida que é mudança.


É a vida, ou deveria ser, sucessão de mudanças em cadeia cujo fim é a mudança última, promovida pelos vermes. Pensando nisso, e considerando se tenho qualquer controle sobre elas, descubro-me nu, um corpinho de carnes violadas em meu próprio vagão desgovernado assistindo, a cada metro, a caminhos possíveis ficando para trás, por conta da lentidão da incerteza, pelos pesos de minhas fraquezas amarrados aos tornozelos, pelo medo de pular em falso para o próximo vagão. Ante o medo, nunca deixei de ser criança; por mais que racionalize e elabore, toda explicação é menos eloquente do que seria um curto ganido. A vida me faz cadela de rua.

É medo de tudo - ou ao menos, de tudo à frente; não me decidi ainda se sou eu que vou andando a seu encontro, ou se estou parado e me é jogado à cara. E esse tudo termina por caber, e ganha força, no espelho, quando me observo com calma. Qual seria, qual será, a feição desse rosto, se lhe retratam a alma? Fará a vida de mim o que costuma fazer em seus caprichos - tomar-me os sonhos e devolver as migalhas, e que faça eu o que puder delas? Termino essa frase e solto um ganido. Continuo.

Penso, temo; olho meus pares, meus amigos, os anônimos todos que compõem minha rotina; quem são eles, se tomadas-lhes as roupas e as carnes; se lhes sobra apenas o reflexo por companhia? Creio, e creio feito um imbecil, que são o mesmo corpinho de carnes violadas que sou, trafegando em velocidade estúpida por uma vida que é mudança. Não cansamos de temer os mesmos medos, guardando-os tal qual nossas vergonhas, com todo esmero do pudor - os mesmos medos sob um silêncio solidário?

Ah, se fôssemos despudorados. Se contássemos uns aos outros nossos medos, descobriríamos sê-los todos os mesmos. E ficassem eles talvez velhos, de tão temidos. E morressem eles talvez cansados, de tão vividos; e viriam outros, novos - se mais nada, ao menos novos. Mas não recomendo o otimismo; continuaremos, assim deste jeito, calados, e para sempre ganindo desgovernados, essas cadelas de rua que somos.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

pela pureza do grotesco.


Quão solitária é a liberdade de uma perversão. Em comum, partilhamos todos o que, da vida, fez-se necessário; as mundices todas que, em última análise, possibilitam a sobrevivência do animal retoricamente disfarçado, mas que ainda necessita de comida que pela boca o adentre e em seguida pelo cu o deixe discretamente, uma cama onde se possam deitar os pecadilhos todos a serem esquecidos pelos sonhos, atividade suficiente para que não lhe caiam flácidos os músculos - ainda que a mente o faça. Um trabalho respeitável, uma hora de almoço durante a qual o façam rir seus colegas, passeios no shopping, cinema compreensível, a embriaguez do chopp potencializando as mesmas risadas da hora do almoço. Tudo o que lhe é necessário é pelo homem compartilhado promiscuamente - o abraço suado da rotina não lhe permite a solidão.

Que faz então alguém quando já quitado o dia? Concordemos ser o homem animal social; que é o homem, contudo, quando findas as obrigações que o brutalizam? O que sobra quando é morto o animal? Pouco pudor há em observar o indivíduo nas horas poucas que lhe restam antes do sono, quando despe a carcaça animal do todo dia, e, nu, poê-se a exercer sua humanidade. O homem é humano somente na presença de suas perversões.

Permita-se a beleza da solidão despudorada. Beleza tantas vezes emancipada da estética, exalada apenas pela pureza do grotesco - na solidão, distiguem-se os homens; não há perversão que se repita, somos definidos pelas nossas vergonhas. A perversão é a impressão digital por cada um deixada sobre a vida, e nada mais sobre ela deixaremos.

Talvez, e aqui fica a incerteza de uma reflexão sem compromissos, nos façamos mais humanos quando soubermos compartilhar nosso grotesco, nossas vergonhas. Bem possível é que, após o choque inicial, percebessemos termos passado a vida sob a proteção débil do medo e da intolerância, apontando as mazelas de cada um, quando somos, afinal, todos iguais na lama encantandora do indivíduo; findaria, por fim, a solidão, e teríamos uns aos outros para desfrutar o desbunde de nossa humanidade.


Não foi esquecida a proposta inicial do blog, trabalho conjunto entre mim e os grandes; cito em minha defesa, portanto, Nelson Rodrigues, quando afirma que se soubéssemos o que cada um faz entre quatro paredes, não nos daríamos bom dia. Bom dia.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

, sem ao menos saber.



As pessoas, esses fungos que, se deixarmos, nos tomam a vida inteira, sem ao menos saber. Se vivê-las significa reservar-lhes espaço vital de nossa lembrança, de nossa vida, preenchido por tudo que resultou de conhecê-las, uma vez que se vão, que nos resta? Aos poucos, e, por vezes, de um só golpe, se esmigalha tudo a que se podia recorrer, e escorre sabe-se lá aonde, que desconheço onde fica o que nem à lembrança mais pertence. Restamos então, cá conosco, com este espaço vazio, esta ausência, onde sopra vez ou outra a brisa de uma saudade; dentro de nós, qualquer eco nos pertence.
Recomendo, portanto, evitar-se despedidas; são aborto duplamente cruel - pelo passado que, a partir de então, se põe a esmigalhar-se, e pelos momentos todos para os quais já havíamos até reservado a parcela de nós mesmos a ser preenchida; essa nunca deixará de ser lacuna, e que a frustração tome, aos poucos, as paredes.
Tenho saudades soprando por todos os vazios que em mim me deixaram, sem nem saber. Chamo por eles todos, os que se foram, e por resposta tenho apenas minha voz, cada vez mais débil, cada vez mais fraca. Ausência não tem cor, são buracos escuros apenas, essas lacunas de que falo.
Dentro de mim, eu, minha voz débil, e as migalhas que restam no chão.
As pessoas, esses fungos que, se deixarmos, nos tomam a vida inteira, sem ao menos saber.

Almejando à coerência e ao amparo dos grandes, Morrissey concorda que "life is a succession of people saying goodbye".


quarta-feira, 7 de julho de 2010

apenas pela beleza do gesto



Sou um ingrato para com as letras. A elas recorro tão somente em momentos nos quais eu por mim mesmo não me sustento, e cá venho forrar minha cama com orações e períodos que me expliquem e me tragam qualquer leveza. Não se decepcionem, pois meu pecado é o mesmo, e cá estou novamente, de novo e sempre.
Tenho duvidado, a sério, de minha sanidade. A maneira pela qual teço expectativas sobre o que, e quem, me rodeia tem se mostrado turva e equivocada - ébrio, tenho estado, em espírito, sem descanso. Sobriedade deve haver em vida, ou onde se possa buscá-la, quando necessário. E onde posso eu buscá-la, agora que me é necessário? Creio ter chegado aonde queria ao começar a escrever, hoje; é necessário haver âncoras para não se perder em todo o infinito de uma individualidade. O indivíduo é entorpecente, quando não há mais convergência com todo resto. E eu, cá comigo, como me fixar novamente alguma razão? Qual minha âncora?
Recorro às letras, novamente, de novo e sempre. É exercício curioso o de escrever. Fácil de se concluir ser um canal direto entre o que há de ideia e o texto concreto, via expressa da cabeça ao papel. Também o é. Que incrível é perceber, contudo, que vêm também, do papel à cabeça, conclusões, ideias, sentimentos, novos e prontos para serem pensados, sentidos, praticados; e deles, tanto, se pode criar. E espero criar minha âncora à sobriedade, a partir deles. Portanto escrevo para que me venha algo novo, e que possa eu, mais uma vez, recorrer às letras, e que elas me amem também, se por nada mais, apenas pela beleza do gesto - de escrever.

A ideia sobre "amar pela beleza do gesto" vem dessa cena do filme "As canções do amor". Está provado que só é possível falar de amor em francês, por sinal.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"É um negócio engraçado isso de felicidade. Você pode lutar, e lutar e lutar mais ainda para ser feliz, mas a felicidade vai chegar devagarinho até você das formas mais peculiares. Me sinto feliz de repente, e não sei o porquê. Alguns dias é por causa da luz do dia ou por alguma razão maravilhosamente imatura, como preparar uma torrada para mim. Felicidade chega até mim até mesmo nos dias ruins. De maneiras muito, mas muito estranhas mesmo. Estou muito feliz em minha vida agora."
-Joni Mitchell, no livro "As melhores entrevistas da Revista Rolling Stone".

Tão simples, mas com tanta verdade. Talvez o refúgio daqueles que, como eu, acham que a razão desvela aos olhos tanta tristeza, seja desistir um tanto dela, todo dia um momento, e permitir-se a insanidade de sentir apenas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

É do amor, o crime, a pergunta.

Tão fácil se incorre no erro de olhar quem hoje ocupa o lugar mais próximo de nós e, sem que haja más intenções, lançar sobre ele as expectativas todas por nossa razão dadas à luz. Espera-se então, do outro, que carregue sobre si fardo que muitas vezes desconhece; e se, em um passo dado a torto na trajetória a dois, derruba ele nossa carga - só nossa - e, desavisado, continua a caminhar sem que ao menos olhe para trás, que dor que é - e restamos nós também, ao chão, junto a tudo aquilo que só a nós cabia levar.
Que se entenda que, em assuntos de amor, a razão é tão somente porta, passagem, fronteira. Dela dispomos até o momento primeiro em que se toma a mão do outro, é dado o primeiro passo e, em silêncio, torna-se sabido, "vem comigo, que há de haver caminho à frente para nós". E tomada a decisão calada, foi-se; da razão resta a distância, apenas - a partir de então o amor é o vazio e a certeza da queda, sem controle senão a gravidade.
E se, ainda caidos, junto ao fardo nosso - só nosso - levantamos a cabeça e vemos que já vai o outro longe, seguindo, não resistimos e gritamos: "por quê?", em nem mesmo um instante tudo se desfaz, vem o chão, e nós a ele, a queda cessa; por companhia, apenas o fardo derrubado. Pois se é a morte o crime da vida, é do amor, o crime, a pergunta.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

, que haja durante.

Nos são apresentados, desde cedo nesta vida, que outra não há e assim espero, os meios pelos quais pode a mesma deixar-se corroer em processo constante e gradual de autofagia, até restar por fim a parcela de quase nada a que se assiste, estático, rumar em sua inevitável caminhada à perdição. Meios, digo eu, e os há, em toda certeza.
O que não nos é dado, assim dito de bandeja, é o discernimento necessário a todos, mas só aos grandes concedido, de que a possibilidade - até probabilidade - do ocaso é motivo grande o bastante para se apontar ao lado oposto, falar a si mesmo que, se não há felicidade ao fim, que haja durante, e retomar os passos dificultosos que nos levam a qualquer lugar outro que não a certeza.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Rosa ou cadáver?

Tanto, tanto tempo sem me visitar por aqui. Em tempos de 140 caracteres no twitter e menos ainda horas livres por dia, acaba que me acostumo a não fazer sequer esforço para perceber palavras que porventura se encadeariam em um qualquer texto coerente e dotado de algum sentido ou sentimento.
Falar de mim não é usual neste recinto. Tento denotar certa perspectiva genérica no que escrevo, sempre receoso de qualquer coisa que se pareça um lamento adolescente. Que hoje se faça exceção, então.
Dois meses fechados, agora vejo, desde minha última passagem. Que fiz desses sessenta e tantos dias? Em verdade, o quão razoável seria perguntar "que fizeram de mim esses sessenta e tantos dias?"? O bom senso deve-se achar em meio termo entre ambas perguntas; acredito que eu e o tempo temos nos exercido influência recíproca. Aparentemente, algo positivo, e que assim continue, se assim for.
Posso bem dizer que uma saudade fez-se presença, novamente. Encaro-a eu como corpo putrefento debilmente reanimado, apenas rescindindo o que resta do seu próprio ranço, ou como a flor que do pus, da merda nasce? Saberei de forma ou outra. Ou talvez dependa de mim apenas: rosa ou cadáver? À terra vai ou da terra vem?
Posso tão bem quanto também dizer das minhas futuras saudades, que as tenho certas apenas pelo quão bom é ter suas razões hoje presentes em vida. Mas se irão, se irão, em certeza e em verdade.
Finalizando, ao menos o que há de disposição para se escrever hoje; dias ocupados, preocupações sobre manter-me vivo à arte e à academia, aos amigos e às obrigações, tudo ao mesmo tempo agora. Impossível, bem se sabe, mas tenta-se.
Espero voltar aqui em breve; voltarei, sim. Não me abandono, não me abandonem. Não se abandonem.

E que fizeram de você esses sessenta e tantos dias?

ps: bem adequado... The Present Tense, o tempo presente, em tradução livre, que é o que nos importa, agora. E linda, linda música.



sexta-feira, 17 de julho de 2009

Amemos, portanto.

Momento aqui emocionado depois de resgatar álbuns antigos me mantendo bebê, e o mesmo fazendo de certa forma aos que me cercavam, quando ainda se ria com a leveza que a infância concede, a nossa ou dos que nos amam. Me veio à mente a seguinte ideia, um olhar dirigido por pai ou mãe a um filho não está preso ao momento que o contém, mas no instante por que é mantido, não mais do que isso, transita livre em viagem pelos anos, o vê nascendo e dando início à história que a deles se confunde, o primeiro sorriso e as primeiras palavras que o explicam, a inocência aos poucos sendo morta pela vida sobre a qual não têm controle, as primeiras ideias que o farão indivíduo, o corpo crescendo até onde pode, a mente crescendo para além de si, isso tudo em um fluxo que culmina no momento presente, em que o filho é esperança, bebê, criança e homem, tudo ao mesmo tempo, no intervalo de um olhar.
E compreensível que não respondamos com o cuidado merecido, e às vezes inclusive com a falta completa dele, nós que somos essa mistura malefeita de criança, homem e esperança; deve-se, vez por outra, contudo, trazer à mente essa ideia, e por ela só, amá-los.
Amemos, portanto, agora, não depois.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A própria ausência de mim.

Levamos conosco vida adentro o vazio do qual viemos, e será ele a herança única que sobre a vida deixaremos quando nos formos. Bem parece sermos de forma que, enquanto vivos, tenhamos apenas uns aos outros com quem contar para preenchê-lo; curiosa soma de vazios, nada e nada, resultando em qualquer coisa que nos explica e sustenta, e da qual devemos nos despir tão somente no momento derradeiro, quando nos iremos inteiros vida afora, deixando apenas nosso vazio particular, e que lidem os vivos com ele.
Se é aceita a ideia anterior, não se pode chamar exagerada a dor de nos vermos novamente subtraidos a nada, pela ausência a nós imposta da outra parte dessa soma; e bem se entende também quem em desespero afirmar ser a saudade a própria ausência de si. Verdade, cá comigo e meu vazio, é a saudade a própria ausência de mim, nos momentos em que só com ele eu puder contar.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Microconto em 15 minutos da madrugada.

- A vida, como vai?
- A vida vai a mesma em tudo que isso diz, ou em verdade, vai ela a mesma em tudo que isso cala.
- Você fala feito literatura, e acho isso chato.
- Antes o fosse; em literatura o fim é pretexto para início qualquer. Nada seria escrito sobre este final sem lições que vivemos; qualquer ponto final em uma página em branco o escreveria melhor, e não há sentido em pontos finais, se finais o são.
- Que seja, não importa, não mais.
- Concordo, e até me surpreendo com isso.
- Se dizemos ambos concordar, algum de nós mente.
- E por que isso?
- A um de nós pertece esse corpo cá no chão, um de nós compartilha o podre que resta do que nele foi carne, a um de nós cabe carregá-lo, com todo o peso inequívoco do fungo e da carniça, sobre os ombros, aonde for.
- Nem o tinha notado.
- Mente.
- Minto.
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-
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- E que bonito foi um dia esse amor.
- Houve beleza, por momento fugidio que seja, em tudo que foi vivo e já não há em vida.
- Literária, você, olha só. Aquele que de nós mente, afinal, vai carregar esse cadáver consigo, é isso?
- É isso.
-
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- Mentimos ambos, portanto?
- Eu, não.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Se mal cuidadas as lembranças.

Não raro se dá a situação em que o que de concreto temos em vida perde aos poucos a nitidez, menor é o controle que exercemos sobre ele, até que por fim reduz-se sem aviso ao espectro malacabado da memória. Pode-se bem dizer, e em verdade se diz com propriedade inquestionável, que é assim mesmo, que um dia seremos nós mesmos pouco menos que a lembrança nas mentes saturadas dos que ficaram, como esperar coisa outra do que levamos conosco? Ainda se diz mais, e ainda corretamente, que agradecidos deveríamos ser pela oportunidade a nós concedida de observarmos o que um dia foi e já não é desse camarote cedido pelo tempo, para que choremos pelo já chorado, aprendamos pelo um dia errado e sigamos em frente, por fim, e que feliz fiquemos, pois bem podia ser que o vivido repassado não pudesse ser e pediriamos licença para entrar em uma infinita sequência de erros iguais.
Bem aceita a bênção de se poder sofrer, e tudo mais que isso implica, e pouco não é, pelo já sofrido e todos esses etecéteras enfadonhos já citados, é aqui ressaltada a mazela que é conseguirmos o feito, ou observá-lo conseguido por outrem, de vermos maculadas as memórias dessas tais dores e sucessos. É possível, e que injusto que é. Não saberia descrever o método ou meios para tal, mas que não se duvide, é possível. E alcançado tamanho feito, restamos nós com o tumor que é uma lembrança pestilenta - faz duvidar do que de belo vivemos em absoluto, faz maior as amarguras quaisquer das quais já curtimos o ranço por tempo suficiente.
A mazela de uma memória é nosso passado maculado, e maculada está também aquela com quem o vivemos; pois então se conclui com tristeza que, se mal cuidadas as lembranças, pensaremos o já vivido como se, ao recordarmos ente querido falecido, pensássemos apenas em seu cadáver putrefento deitado rígido em seu velório.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Todo amor já foi coisa diferente.

Todo amor já foi coisa diferente; entre o instante anônimo do primeiro suspiro e o momento doceamargo do último engasgo, não deixa ele de mudar, como bem mesmo o vivente que o encerra. E se já não mais há eloquência entre olhos um dia tão falantes, que não se culpem córneas e cristalinos - é mesmo o amor que, ante o fim, se cala, e espera mudo para, em um último esforço altruísta, morrer só. E descontada a nobre intenção, fato é que, em amor, nunca se morre sozinho.
Bem verdade que pode ele, em sua dinâmica, crescer e fazer-se forte, e sem dúvida o faz; é o momento para mostrá-lo e exercê-lo - nada mais rico em estética que sujeito carregado por amor robusto. Desapego, se possível fosse haver, seria aqui recomendado, pois não demoram pernas a fraquejar, o ar faz-se faltoso, e tão mais cedo do que se espera, somos nós a carregar sobre os ombros o corpo débil do que foi um amor a dois. Até por fim largá-lo, que se vire só, já que só estou também, vá aonde vão os amores senis e por lá se realize até que finalmente se desfaça em qualquer coisa que sobre de um sentimento liquidado. Ou bem se pode guardá-lo em gaveta pouco usada, e aqui se pode ou não entender metáfora, e vez em quando abri-la somente para, em vista do fungo, do mofo e do pus, constatar em amargura: todo amor já foi coisa diferente.


Para amenizar um tanto o ranço amargo dessas letras, vai aqui uma amargura um tanto mais doce.


quinta-feira, 4 de junho de 2009

Pensamento aleatório de uma manhã cinzenta.

Recife nunca fica tão linda quanto em dias de chuva. Por mais autêntico que seja o azul no céu de um dia de sol, acabamos por nos render à estafa de por todo o dia, e todo dia, termos nossas miudezas menos radiantes constrangidas por uma beleza que não admite oposição. O sol em Recife é absoluto, e impõe a promiscuidade de uma alegria úmida comum a todos - é contrastante e quase marginal a intenção apenas de contrariá-la, com o cinza de um rosto ou de alma.
Por isso, em uma manhã de chuva como essa, cá com meu café por testemunha, aproveito a distração da tantas vezes constante vigília solar, e liberto pelo recinto as melancolias tantas que de outra forma estariam onde não posso vê-las, mas sentiria o pus que têm por hábito cultivarem quando em companhia somente delas mesmo. E que diferença é vê-las, notar seus traços e o que de belo se perde entre eles. É por demais óbvia a beleza de um céu azul; maior mérito é revelar a si mesmo o quão bonito pode ser seu interior em cinza.
E em um diálogo matinal com todas elas, ou com as que se deram ao atrevimento de mostrarem-se, nelas descubro o que me distingue e me define, desmistifico-as e percebo que talvez melhor esteja eu com elas. E que eu não precise de uma rara manhã cinzenta para perceber o quão eu triste eu seria sem minha tristeza.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Um céu escuro de passado.


Bem verdade a quebra em um ritmo tão bom de escrita a que tinha me acostumado pelas primeiras semanas; mas é possível que haja a infeliz oposição, aqui, entre minha escrita e minha vida - que uma se alimente do que à outra é carniça. Torçamos então por tempos de fome literária.
Tenho cá pensado, no entanto, sobre a infeliz relação entre um e suas ausências - infeliz por tão pouco ou nada recíproca. Enquanto tão fácil nos tocam os ausentes, a eles podemos tão somente assistir desse camarote melancólico que é a memória. E continuaremos a assisti-los tomarem formas improváveis, em um céu escuro de passado, tão longe ao toque, mas à distância de um olhar, até que por fim se desfaçam em saudades e, logo, em nada mais. E nada mais tantas vezes é o que falta para o claro de um céu que, por mais que discordem nossos olhos, é o mesmo e o será sempre.
Que fique perdoado o texto pouco inspirado por motivo de ressaca e de uma certa falta de objetivo com essa música de céu azul.





Wilco - Sky Blue Sky